A AIC - Arquitetura de Interiores com Conteúdo é uma arquitetura com sentido, reflexão e com vida: ela se baseia na sua história.
Às vezes visitamos uma casa e a impressão que temos é que estamos entrando numa loja de decoração, as peças caras no ambiente não trazem nenhum sentido com o proprietário, não vemos na casa a extensão de quem ele é, apenas uma impessoalidade, algo neutro, paradoxalmente vazio, ou até destoante.
Esteticamente muitos podem considerada-la uma bela arquitetura de interior, mas para quem tem um mínimo de senso crítico, este tipo de arquitetura, “copiou-colou”, não é, afinal, quem deseja ver uma loja de decoração deve visitar uma, e não a casa de um amigo. A casa é pra ser um lar, e um lar tem história.
É elegante um lar que fale da família que ali mora, e não do estranho que o decorou, mas muitos não conhecem a verdadeira elegância, acham que é só seguir as tendências da moda na decoração e usar objetos caros.
A arquitetura com conteúdo é diferente, ela deve fazer brotar a beleza interior dos moradores em todo o espaço, uma arquitetura viva, e que, portanto, fale o que eles têm de melhor: as histórias de suas vida, o que eles são, e o que almejam ser ou fazer.
Deve ser uma arquitetura que conte um pouco do passado, presente e sonhos futuros dos habitantes, em que cada peça tenha uma razão de ser, formando uma decoração com conteúdo de vida, o oposto de um ambiente impessoal saído de uma vitrine de loja ou de páginas de revista, que por ser falso e artificial, torna-se para os críticos algo brega, pois a pessoa passa a morar num aquário, numa mentira, num cenário, mas não no seu lar.
Entretanto, a arquitetura com conteúdo, deve ser feito na medida adequada para não se tornar um museu ou um amontoados de coisas velhas que não dialogam entre si, e, portanto, preferencialmente com o apoio de um bom profissional.
Alguns
acham que basta fazer um simples briefing, ou um bate-papo rápido com o
cliente, e sair montando a decoração. Entretanto a arquitetura construtivista
envolve o cliente em diversas etapas, e, portanto, é mais trabalhosa para
ambos, e muitos não dispõem do tempo necessário. E trazer a loja ou a revista para
casa de alguém é muito mais fácil que fazer uma arquitetura de interior
construtivista.
Alguns mascaram o ambiente falso que criaram com alguns porta-retratos dos proprietários, ou se o quarto é de uma pessoa que surfa, põem uma prancha, ou se a pessoa é um advogado colocam sobre a estante uma balança, e por ai vai, e por dispor um elemento acha que contextualizou. Outros partem para as cores, se a pessoa gosta de cores vivas, então às põem, e se prefere os tons discretos, fazem o mesmo, e pronto, acham que isso, por si só, basta, o resto é cópia da vitrine da loja de decoração, o cômodo da revista ou fruto do gosto pessoal do arquiteto.
Mas uma arquitetura construtivista requer bem mais a participação dos moradores no processo decorativo, é um trabalho muito mais profundo. Entretanto alguns gostam apenas é do dinheiro dos clientes e não que estes se envolvam no “seu trabalho”.
Alguns conceitos de arquitetura interior com conteúdo (aqui lê-se: conteúdo dos moradores retratado pelo profissional):
Organizar o tempo, do profissional e moradores, para que a questão gire entorno da qualidade de tempo e não na quantidade, já que esta é limitada. Portanto podem ser utilizados questionários prévios, que não necessitam ser preenchidos, mas refletidos individualmente, para as idéias fluírem mais rápido quando o novo encontro entre os moradores e o profissional acontecer.
O Questionário deve perguntar inclusive o que do passado o morador quer revelar na decoração, mesmo que seja de forma velada, como um enigma a ser decifrado pelos visitantes, o bom é verificar as possibilidades das diversas fases da vida (infância, adolescência, juventude...), os eventos/experiências marcantes, engraçadas, saudosas ou uma simples homenagem, que se deseja fazer referência na decoração.
Depois de selecionar os eventos, deve-se pegar cada fato e fazer uma releitura. E algumas recordações podem ser trabalhadas juntas.
Embora este tipo de arquitetura passe por linhas mais profundas, darei um exemplo bem simples, para que o leigo possa ter uma ideia inicial: digamos que na adolescência o proprietário da casa foi campeão de xadrez na escola, algo simples, porém que o marcou muito e traz boas recordações, a partir desse fato, o arquiteto poderá, por exemplo, criar um forro xadrez para a poltrona preferida do morador, ou sua mesa de leitura em madeiras em estilo xadrez. Não se trata de por um jogo de xadrez sobre a estante da sala.
O importante é que o morador sabe o porquê daquela poltrona/mesa ter aquela referência xadrez, ele sabe o que significa, e caso alguém elogie a beleza da mesa, ele poderá finalmente aproveitar para desvendar sua história: dizer foi inspirada num campeonato de xadrez que venceu quando adolescente. E não porque é a ultima tendência.
O trabalho do profissional é costurar os variados fatos escolhidos dos diversos moradores de forma harmônica e bela. O arquiteto torna-se um escritor, a casa é o livro, mas não é sua autobiografia, mas uma releitura de contos dos moradores. É claro que o estudo e a composição são muito mais elaborados, por isto, este tipo de trabalho é aparentemente mais caro que a decoração comum que muito se vê por ai, porém numa análise mais detalhada, percebe-se que o resultado é muito mais gratificante para ambos: clientes e profissional.
Você participa da criação
Para quem não pode dispor de um desses profissionais, seguem algumas dicas:
Sabe aquele vestido da sua adolescência, que tanto lhe marcou, com aquela estampa de tecido, com aquela combinação de cores, que você dançou pela primeira vez com o amor da sua vida e deu o primeiro beijo? Que tal garimpar um tecido parecido e mandar fazer lençol e fronhas, com aquele jogo de cores, e decorar sua cama para uma bela noite de amor. É possível que seu marido não lembre do seu vestido, mas você poderá relembrá-lo daquele beijo, e explicar para ele a escolha daquele tecido. Então, sempre que ele ver a cama com aquele lençol ele vai lembrar das suas boas intenções, rsrsrs. Garanto que será melhor que aquele jogo de lençol caríssimo que você viu naquela loja, este não segue a tendência, sabe lá de quem, mas segue o seu coração, a sua história.
Talvez essa dica não se encaixe ao seu perfil, mas o importante é que você entendeu o jogo, e, portanto poderá fazer sua partida.
E sucesso!
Alessandro Filgueiras